O dia começava repleto de novidades e desafios: a Vila Cruzeiro, uma das favelas mais perigosas do Rio, tinha sido ocupada no dia anterior pela polícia que tomou o território, mas não prendeu os criminosos.
Os traficantes fugiram, em bando, armados, para o conjunto de favelas do Alemão, até então considerado o Quartel General do Tráfico. A fuga foi acompanhada, ao Vivo pela Tv por gente de todo País. Lembro de passar por bares no caminho e ver todos os fequentadores parados em frente à televisão, acompanhando os bandidos que avançavam sem serem incomodados pela polícia. Atortoadas diante do flagrante de impunidade, as pessoas gritavam "Mata! Mata! Atira nos desgraçados", como se estivessem diante de um filme de ação...
Com toda essa repercussão, o conjunto de favelas do Alemão se tornava o "olho do furacão". Foi prá lá que os bandidos tinham fugido, era para onde a polícia teria que ir e também o meu destino.
Mais uma vez, o bravo cinegrafista Leonardo Texeira foi escalado para ir comigo. No trabalho de rua, somos só nós dois. Por isso, a parceria é tão importante. Basta um olhar diferente para que o outro entenda o recado. A compreesão de um gesto sutil pode selar a diferença entre uma matéria burocrática e um furo de reportagem.
Bom, mas voltando à "nossa guerra", lá estávamos nós dois, mais uma vez, a caminho da favela. Ao chegar no Alemão, a situação que encontramos me impressionou. Do alto do morro, traficantes armados se escondiam atrás de barricadas improvidadas e observavam a polícia que se mantinha na parte de baixo, também atrás de algo que podesse ser usado como proteção: carros abandonados, postes, qualquer coisa.
Nestes casos, de confrontos abertos, nós, profissionais da imprensa, ficamos em uma situação beeem delicada. Procuramos ficar proximos à polícia para não sermos abordados pelos bandidos, no entanto, não podemos ficar perto de mais pois há o risco de nos tornamos alvos. Onde ficar, então? Era o que eu e meus colegas de profissãos tentávamos descobrir.
Buscava proteção atrás da pilastra, ao lado de um poste, mudava de lugar a medida que os tiros eram disparados. Não era um tiroteio frequente. Era pior, até. Durante 20,30 minutos traficantes e policiais se encaravam, cada um tentando localizar pela mira das armas a posição do outro. Então, eram feitos os disparos. Duravam cinco, dez segundos e recomeçava o silêncio de mais meia hora.
Em meio ao confronto, os moradores deixavam a favela. Eles desciam o morro com a quantidade de sacolas que conseguiam carregar. A maioria tinha crianças de colo e deixava a casa para trás para proteger os filhos da guerra que parecia estar cada vez mais próxima. Eu, como repórter, tinha que conseguir falar com eles. Um desafio e tanto para quem trabalha em televisão, afinal um depoimento como este pode até custar a vida de um morador, caso ele seja reconhecido por traficantes. Por isso, é mais do que compreensível que ele não queira gravar entrevistas. O que eu podia oferecer de alternativa era a garantia de não mostrar o rosto do meu entrevistado. Eu posso filmar de costas ou apenas um pedaço dos corpo para preservar a identidade de quem está falando comigo. Reconhecer fica muito difícil, mas não impossível.Mesmo assim, alguns moradores aceitaram falar, acredito que eles queriam desabafar, contar como estavam se sentindo.
Lembro de uma mulher em especial que trabalhava como empregada doméstica. Ela tinha que sair, precisava ir trabalhar, mas não tinha onde, nem com quem deixar os três filhos de nove, sete e três anos. A solução foi orientar os mais velhos a, se ouvissem disparos, correrem com o menor para um quarto da casa que ela acrediatava ser um pouco mais protegido. Ela também contou que os traficantes estavam fazendo grandes buracos para impedir a subida dos carros de polícia. Por telefone, moradores procuraram a rádio Bandnews Fluminense Fm e disseram que os bandidos estavam invadindo casas. A polícia tinha que entrar o quanto antes, mas como, sem evitar um banho de sangue? A opção foi adiar a tomada da favela para o fim de semana. Era o meu plantão.
Neste endereço você consegue assistir a reportagem que foi exibida neste dia.
http://www.youtube.com/watch?v=-Cu3Vgxged4&feature=related
( A HISTÓRIA CONTINUA EM "A OCUPAÇÃO")
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